Bastaram 45 minutos para abalar toda a fé tricolor. Sim, porque o primeiro tempo da equipe mandante foi sofrível, o pior em Pituaçu nesta série A. Apesar da mesma escalação que antecipei aqui, o comportamento coletivo foi muito abaixo do esperado. A repetição de uma estratégia inadequada às características dos jogadores, travou de vez o time.
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| Linhas recuadas permitiram que o Inter trocasse passes na intermediária e buscasse o jogador de referência. Tinga movimentou-se com liberdade e comandou transição ofensiva no 1º tempo. |
René Simões não abre mão, mesmo atuando em Pituaçu, de jogar no contra ataque. Exceção feita ao jogo contra o Atlético-GO - onde esteve com o cargo ameaçado - em todos os outros confrontos a postura da equipe foi a mesma: Marcar a partir da própria intermediária, oferecer posse de bola e campo ao adversário para explorar os erros e o espaço para transição ofensiva em velocidade. Às vezes, recorrendo a marcação individual dos destaques do oponente [não ocorreu no domingo]. Essa estratégia pode funcionar - jogando assim o Dragão derrotou o Santos com autoridade no meio de semana Mas existem diferenças fundamentais que fazem a estratégia ser adequada aos goianos e pouco efetiva com os baianos:
- Meia com característica box-to-box¹ - No Atlético, Bida tem feito essa função exemplarmente. Marca forte sem a bola, mas se aproxima com qualidade e cadência com a bola, para armar e finalizar. Ninguém no Bahia faz essa função. Ricardinho possui a cadência, mas não se aproxima. Carlos Alberto possui qualidade e força, mas falta ritmo, e os volantes não tem qualidade. Fica um espaço sem preencher e falta velocidade e infiltração pelo meio. A transição fica restrita às laterais;
-Atacante que faça pivô e segure a bola - Anselmo tem sido a referência necessária, para a função. Movimenta-se sem a bola, espera a chegada dos companheiros, abre espaços na defesa e finaliza quando tem oportunidade. No Bahia Jóbson tem movimentação e qualidade, mas é individualista. Reinaldo finaliza bem mas movimenta pouco e não segura a bola. Júnior e Souza não tem conseguido dar sequência às jogadas nem prender a bola no ataque. Na prática, a bola pouco fica no campo ofensivo, num eterno bate-volta que mina a defesa.
Curiosamente, sempre que está em desvantagem no placar, ou precisa construir o resultado, o Bahia adianta suas linhas. Com os meias atuando mais próximos da grande área adversária, o time melhora a troca de passes e a posse de bola. O próprio René admitiu que as linhas do time estavam recuadas demais, citou que os laterais marcavam muito atrás - prejudicando a atuação de ambos, que atuam melhor a partir do meio, como alas. Muito mais importante que a discussão sobre a utilização de dois ou três volantes é a distribuição do time e a postura em campo.
Apesar do primeiro tempo sofrível, é de ressaltar que os meias estiveram bem quando a equipe se posicionou mais convenientemente em campo. Os laterais também subiram de produção. Passou da hora de René reavaliar a forma de atuar da equipe. Afinal a postura tática da equipe serve para potencializar as qualidades dos jogadores, não para legitimar as convicções do técnico.
Positivo: Jones e Lulinha entraram muito bem. Ajudou o fato da equipe ter adiantado o posicionamento, mesmo assim, a movimentação de ambos contagiou o time.
Lamentável: Thiego teve uma atuação deplorável. Perdeu todas para Leandro Damião, e tomou vários puxões de orelha de Paulo Miranda por não antecipar as jogadas. Fabinho jogou muito mal também - independente da expulsão. Reinaldo pouco participou do jogo [recebeu apenas 11 bolas], muito apático. Ávine errou 9 de 32 passes, quase um terço! É o pior neste quesito.
Satisfatório: Lomba e Miranda, sempre bem. Carlos Alberto participativo com desarmes, dribles, protegendo a bola, conquistando a torcida. Ricardinho não tão bem como nas últimas partidas, mas muito importante nas viradas de jogo.
Box-to-box¹ é uma referência ao jogador que faz, no meio-campo central, o “vai-vem”. Box significa área, em inglês, portanto a tradução é “de área a área”. A imagem é claríssima: o jogador que sem a bola posiciona-se defensivamente à frente da própria área, e quando a equipe recupera a bola aproxima-se dos atacantes, nos arredores da área adversária. Atuar nos dois campos é prerrogativa básica desta tática individual.

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